A designer Ligia Emanuel da Silva abriu seu pequeno negócio, o Entorno Acessórios, há cerca de quatro anos em Rio Tinto, Paraíba. Foi durante a pandemia da covid-19 que ela teve a ideia de produzir e vender acessórios baseados na cultura africana. Usando uma maleta de miçangas da mãe, as primeiras peças foram criadas.
Ligia ilustra um dado revelador de uma pesquisa: 56% dos negócios em favelas começaram a funcionar a partir de fevereiro de 2020. Este período marca o início da pandemia da covid-19 no Brasil.
O impacto da pandemia no empreendedorismo local
O levantamento, realizado pelo instituto Data Favela e encomendado pela VR, aponta um crescimento notável. 12% dos negócios foram abertos entre fevereiro de 2020 e abril de 2022, durante os momentos mais críticos da crise sanitária. Outros 44% estabeleceram-se a partir de maio de 2022, após o término do estado de emergência em saúde.
Para Cleo Santana, do Data Favela, essa tendência está diretamente ligada à crise econômica. Muitas pessoas perderam seus empregos e precisaram se reinventar. A capacidade de transformar habilidades domésticas em fontes de renda foi crucial, exemplificando a resiliência das comunidades.
Ligia, que utiliza um perfil em rede social para divulgar seus produtos, considera o empreendedorismo um ato cultural e político. Ela afirma que adornar-se com símbolos estético-culturais articula um discurso sobre identidade e origem. Para acompanhar mais notícias e informações como esta, siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp.
Ligia Emanuel da Silva abriu um pequeno negócio em Rio Tinto, litoral norte da Paraíba – Foto: Ligia Emanuele/Arquivo pessoal
Perfil dos negócios e empreendedores das favelas
O Data Favela entrevistou mil empreendedores em favelas de todo o Brasil entre outubro e novembro de 2023. O objetivo foi traçar um perfil detalhado desses donos de negócios. A pesquisa oferece uma visão clara do cenário econômico e operacional dessas iniciativas.
Faturamento e gastos
O levantamento identificou que 23% dos negócios faturavam até um salário mínimo da época (R$ 1.518). Já 28% arrecadavam entre um e dois salários mínimos, totalizando 51% com faturamento de até R$ 3.040. Apenas 5% tinham receita superior a R$ 15,2 mil, mostrando a predominância de pequenos negócios.
Em relação aos gastos, 57% dos estabelecimentos despendiam até R$ 3.040 por mês para se manterem. Isso leva a supor, segundo o Data Favela, que os gastos são equivalentes ao faturamento mensal desses empreendedores.
Capital inicial e financiamento
Os pesquisadores descobriram que 37% dos empreendedores precisaram de até R$ 1.520 de capital inicial. Para 23%, o valor chegou a no máximo R$ 3.040. Apenas 9% citaram recursos financeiros acima de R$ 15,2 mil, indicando um baixo custo para iniciar a maioria dos negócios.
A principal fonte de capital inicial foi economias pessoais ou da família, citadas por 57% dos entrevistados. Outras fontes incluem indenização trabalhista (14%), dinheiro extra (14%) e empréstimo bancário (13%).
Administração e marketing
A maioria dos empreendedores (59%) administra seus negócios apenas com anotações em cadernos. Outros 13% não registram nada, enquanto 24% utilizam planilhas. Isso aponta para a necessidade de mais ferramentas e educação em gestão.
Na promoção de produtos e serviços, as redes sociais são dominantes: 75% usam Instagram, 58% WhatsApp e 41% Facebook. Notavelmente, 34% dependem exclusivamente da propaganda boca a boca. A presença em plataformas como o iFood é menor, com apenas 3%.
Principais setores
As áreas de negócios mais comuns nas favelas são alimentação e bebidas (45%). Seguem moda (12%), beleza (13%) e artesanato (8%). Estes setores refletem tanto necessidades básicas quanto oportunidades culturais e de serviço.
Data Favela entrevistou 1 mil empreendedores de favelas em todo o Brasil – Foto: Lucas Costa/Divulgação