Uma pesquisa recente, conduzida pela Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), identificou a presença de mercúrio e chumbo em caranguejos-uçá do litoral paranaense. A descoberta levanta preocupações sobre a qualidade ambiental dos manguezais e seus habitantes.
O caranguejo-uçá é um alimento tradicional e fonte de renda vital para comunidades caiçaras da região, como a de Antônio de Souza. Ele, que cata o crustáceo há quase 50 anos, participa de iniciativas de conservação da espécie.
O pescador Antônio Souza captura caranguejos-uçá no manguezal da Baía de Paranaguá, área monitorada pelo Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A descoberta preocupante nos manguezais
Pesquisadores do Rebimar monitoram a saúde dos mangues e do caranguejo-uçá, espécie emblemática da área. A pesca desse crustáceo movimentou cerca de R$ 9,8 milhões no Paraná em 2024, evidenciando sua relevância econômica.
A professora Cassiana Baptista Metri, da Unespar e pesquisadora do Rebimar, analisou a composição química dos caranguejos. Embora tenha encontrado elementos benéficos como zinco, manganês e magnésio, a identificação de mercúrio e chumbo gerou um alerta.
A presença dos contaminantes, no entanto, não foi constante, variando conforme o local e a época do ano. Este dado inicial sugere a necessidade de investigações mais aprofundadas sobre as fontes de poluição.
A pesquisadora Cassiana Metri, do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), faz monitoramento do manguezal na Baía de Paranaguá, área da Grande Reserva da Mata Atlântica – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Implicações para a saúde humana e o ambiente
A pesquisadora Cassiana Metri enfatiza a necessidade de mais estudos para determinar os efeitos do consumo na saúde humana. O objetivo é entender o quanto um caranguejo potencialmente contaminado pode prejudicar a saúde.
O consumo do caranguejo-uçá é geralmente localizado e sazonal, concentrando-se no período de verão, fora do defeso. Contudo, metais como mercúrio e chumbo podem acumular-se no organismo ao longo do tempo, gerando preocupação.
A saúde dos caranguejos em questão
Curiosamente, os caranguejos analisados, mesmo com a presença dos contaminantes, mostraram-se saudáveis e ativos. Este fato intrigou os pesquisadores, que agora investigam possíveis mecanismos de defesa dos crustáceos.
Duas hipóteses estão sendo exploradas: a primeira sugere que os caranguejos eliminam os contaminantes pela troca da carapaça. A segunda investiga se a dieta, rica em folhas de mangue com tanino, oferece proteção antioxidante.
Essas linhas de pesquisa podem não apenas desvendar os segredos dos caranguejos, mas também abrir caminho para o desenvolvimento de novos produtos pela indústria farmacêutica.
O contexto ambiental da Baía de Paranaguá
A região dos manguezais, onde o estudo foi realizado, está próxima de áreas diversas e de grande impacto ambiental. Incluem-se o movimentado Porto de Paranaguá, a Ilha da Cotinga (terra indígena) e a turística Ilha do Mel.
Esta heterogeneidade do entorno pode influenciar a presença e a distribuição dos contaminantes. Isso torna o monitoramento contínuo ainda mais crucial para a proteção desses ecossistemas vitais e das comunidades locais.