A formalização no mercado de trabalho para jovens brasileiros de 16 a 29 anos é marcada por profundas desigualdades. Esta realidade foi descrita pela pesquisa “Juventudes e o Mundo do Trabalho”.
O estudo foi realizado pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva. Os resultados foram divulgados em 21 de julho, no evento “Trampos do Futuro” em São Paulo, ouvindo 1.816 jovens de todo o país.
O retrato do trabalho jovem no Brasil
Entre os 70% de jovens que declararam estar trabalhando, 44% possuem carteira assinada. Contudo, 15% são assalariados sem registro formal e 13% atuam como autônomos ou freelancers.
Outros 10% estão em trabalhos informais e 8% são estagiários ou aprendizes remunerados. Além disso, 20% dos jovens buscam trabalho ativamente, e 61% tentaram uma nova colocação no último ano.
Entregadores de aplicativo trabalham na região do Centro do Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Desigualdades alarmantes: classe, região e raça
Impacto da classe social
Jovens das classes A/B representam 43% dos que trabalham formalmente, enquanto os das classes D/E somam 35%. Esta diferença acentua as disparidades no acesso ao emprego regulamentado.
Por outro lado, 21% dos jovens das classes D/E trabalham sem registro formal. Esse percentual é significativamente menor nas classes A/B, atingindo 13%.
Disparidades regionais
A formalização é mais comum entre os jovens do Sul (58%) e Sudeste (55%) do país. No Norte, apenas 29% dos jovens têm emprego formal, e no Nordeste, o índice é de 20%.
Diferenças raciais e educacionais
Entre os jovens brancos, 49% possuem emprego formal, contra 41% entre os negros. A disparidade se inverte nos trabalhos informais.
O percentual de jovens negros que dependem de bicos informais é de 12%, enquanto o de brancos é de 5%. A escolaridade também influencia esse cenário.
Trabalhar em bicos é a realidade para 34% dos jovens com ensino fundamental. Em contraste, apenas 3% daqueles com nível superior atuam nesse tipo de ocupação.
Barreiras para conseguir emprego
Quase metade (49%) dos entrevistados aponta a falta de experiência como principal barreira para conseguir emprego. A alta concorrência por vagas é a segunda maior dificuldade, citada por 39%.
A maioria dos jovens, 96%, acredita que conhecer alguém na empresa ou ser indicado por familiares/amigos ajuda a conseguir um emprego. Esta percepção é crucial no cenário atual.
De fato, 77% afirmaram ter conseguido seu emprego atual por indicação. Este índice sobe para 81% entre os mais velhos (25 a 29 anos), mostrando o peso das redes de contato.
Sonhos e planos para o futuro profissional
Atualmente, 30% dos jovens brasileiros desejam um emprego com carteira assinada. Contudo, essa preferência muda drasticamente ao considerar os próximos cinco anos.
Em cinco anos, a busca por carteira assinada cai para 16%, enquanto a preferência por trabalho autônomo cresce de 28% para 42%. A gerente do Observatório da Fundação Itaú, Carla Chiamareli, comenta essa mudança.
“O jovem entende que precisa começar com estabilidade para adquirir experiência, e depois pode escolher estar dentro de uma empresa ou não”, explicou Carla à Agência Brasil. Ela enfatiza que o desejo não é por instabilidade.
Para Chiamareli, o trabalho autônomo não significa precarização. “É ter uma empresa, ser dono de um negócio. Faz parte do sonhar”, afirma. Ela destaca o desejo por estabilidade e boa remuneração.
O interesse por trabalho autônomo futuro é maior entre jovens com filhos (50%), das regiões Sul (49%) e Centro-Oeste (48%), e brancos (45%). Moradores do interior (45%) também se destacam.
Já o emprego com carteira assinada é mais desejado por jovens das classes D/E (23%), com ensino fundamental (22%) e juventudes negras (18%). Estes perfis buscam maior segurança.
A maioria dos jovens (91%) acredita que sua situação financeira estará melhor daqui a cinco anos. Além disso, 88% confiam em uma condição financeira superior à dos pais, reconhecendo a necessidade de mais estudo para o sucesso profissional.