Uma nova e impactante exposição no Rio de Janeiro, “Coexistir Coabitar”, apresenta obras de arte criadas por pessoas que passaram pelo sistema prisional e seus familiares. A mostra utiliza diversas linguagens para provocar reflexões profundas sobre encarceramento e justiça social.
É uma oportunidade única para o público mergulhar em perspectivas muitas vezes silenciadas. A exposição busca humanizar o debate, abordando desigualdades sociais e políticas públicas sob a ótica de quem viveu essa realidade.
O poder da arte na ressignificação do cárcere
A mostra reúne 27 artistas e é resultado de uma residência artística realizada no Museu da Vida Fiocruz. Este processo inovador articulou arte, saúde e justiça social, usando a criação como ferramenta de escuta e reconstrução de trajetórias.
O curador Jean Carlos Azuos enfatiza que as obras partem das experiências reais dos participantes. “Arte, justiça social e saúde ampliada atravessam os processos de criação e se tornam matéria e linguagem”, afirma Azuos.
"Cadeias de Vidro": a arte de Wallace Costa
O artista e biomédico Wallace Costa, de 29 anos, é um dos destaques com sua obra “Cadeias de Vidro”. Em três telas de resina, ele revisita a difícil trajetória de seu pai na prisão e as marcas profundas que ela deixou na família.
Wallace compartilha o impacto de conviver com o pai após períodos de encarceramento, incluindo o monitoramento de tornozeleira eletrônica e o uso de drogas dentro de casa. Para ele, a arte é um meio de elaborar memórias e estimular reflexões sobre justiça, saúde mental e ressocialização.
A placa central de sua obra reproduz um jornal que retratou seu pai como instigador de uma rebelião em 2004. Fragmentos de vidro, adesivos e canudos encapsulados em resina simbolizam a fragmentação e anulação do sujeito encarcerado.
“O objetivo é tanto se ver na pele do outro quanto procurar se reconhecer em um reflexo distorcido de si mesmo”, explica Wallace. Ele explora a saúde mental de um egresso, a partir da experiência de seu pai como detento.
Larissa Rolando: superação e identidade através da escultura
A jovem Larissa Rolando, de 20 anos, moradora de Bangu, apresenta uma escultura de coração empalado. Detida entre fevereiro e maio do ano passado, ela transformou sua experiência prisional em reflexão pessoal e arte.
Sendo uma mulher trans com documentos retificados, Larissa enfrentou o medo de ser alocada em uma unidade masculina. No entanto, ela relata que os homens foram muito respeitosos e solícitos.
Apesar do bom tratamento, Larissa lidou com condições precárias de higiene e alimentação. A experiência a amadureceu, levando-a a rever amizades e prioridades, o que se refletiu em sua decisão de investir na escultura como linguagem principal.
Sua obra, um coração empalado com veias e CDs nas pontas, é um tributo à música. “A música sempre esteve comigo, nos momentos tristes e felizes”, explica Larissa, que usou a arte para expressar sua trajetória e transição de gênero.
Larissa Rolando fez uma escultura de coração empalado para a exposição – Foto: Thiego Mattos/Divulgação
Visite a exposição "Coexistir Coabitar"
Informações essenciais para sua visita
A exposição “Coexistir Coabitar” está aberta no Largo das Artes, localizado na Rua Luís de Camões, 02, Centro (1º andar).
A visitação está disponível até 25 de abril de 2026. Os horários são de terça a sábado, das 10h às 17h.
A entrada é gratuita, permitindo acesso a essa experiência transformadora. A programação inclui também atividades educativas, como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa.