Com olhos emocionados e um sorriso no rosto, a professora carioca Carmen Araújo, de 59 anos, deixou o samba tomar conta de seus pés em um pré-carnaval em Brasília. Para ela, a folia é um respiro necessário.
Carmen cuida do pai, que tem doença de Alzheimer, há 15 anos. Essa experiência a ensinou que nunca é tarde para cuidar de si mesma.
Brasília, DF 08/02/2026 Carmem Araújo cuida do pai com Alzheimer. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
O Coletivo Filhas da Mãe: Apoio na Folia
Carmen é integrante do coletivo Filhas da Mãe, fundado em 2019. O grupo apoia pessoas, em sua maioria mulheres, que cuidam de familiares com doenças demenciais.
Durante o período de folia, o coletivo se transforma em um bloco carnavalesco. É uma forma de encontrar leveza em meio à rotina exaustiva.
“Se a gente não se cuidar, adoecemos também”, explica Carmen, ressaltando a importância do autocuidado.
O amor pelo carnaval foi herdado de seu pai, hoje com 89 anos. “Ele sempre gostou muito. Até recentemente ele ainda participava. Hoje não é mais possível”.
Carmen se emociona ao lembrar do pai, sempre animado e organizado. Ela percebe que participar do coletivo a ajudou a colaborar com outras famílias em histórias semelhantes.
A Rede de Apoio e a Visão das Fundadoras
A psicanalista Cosette Castro, uma das fundadoras e diretoras do Filhas da Mãe, explica a origem da ideia. O coletivo surgiu das dores e soluções encontradas no cuidado com sua mãe, que faleceu há cinco anos.
“Eu sou filha única e cuidei 10 anos da minha mãe, que teve Alzheimer. As pessoas falam muito de remédio, de como cuidar. Mas ninguém olha para nós que estávamos cuidando e com sobrecarga”, considera Cosette.
Brasília, DF 08/02/2026 Cosette Castro é uma das fundadoras do grupo Filhas da Mãe. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Cosette enfatiza a necessidade de recuperar a criança interior em cada pessoa. É essencial encontrar momentos de alegria, mesmo diante das responsabilidades.
“Às vezes, a gente imagina que não tem mais direito ao riso e se sente culpada por se sentir feliz porque os dias são de muita responsabilidade por 24 horas ao dia”.
A psicanalista explica que o coletivo atende diariamente pelo menos 550 pessoas, oferecendo uma rede de apoio. Os serviços são voluntários e incluem atividades virtuais.
A iniciativa visa promover a saúde e dar visibilidade à importância do diagnóstico precoce de doenças demenciais, como o Alzheimer. Também busca conscientizar sobre a sobrecarga das cuidadoras.
Problemas como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão, problemas cardíacos e transtornos mentais são comuns entre esse público. “São pessoas que não dormem, têm insônia e um nível de ansiedade altíssimo”.
Por isso, o coletivo utiliza eventos como caminhadas, exposições e o próprio carnaval para informar e apoiar. Os sons, inclusive, têm valor terapêutico.
No caso de sua mãe e de outras cuidadoras, as letras das músicas foram uma das últimas memórias perdidas. A música mantém uma conexão com o passado.
Brasília, DF 08/02/2026 – Márcia Uchôa, uma das fundadoras do grupo Filhas da Mãe. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Na casa de Márcia Uchôa, de 69 anos, a mãe, Maria, de 96, também diagnosticada com Alzheimer, adora música e crochê. Ela não compareceu à folia por receio da gripe.
“A gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente”, afirma Márcia, reforçando a mensagem de autocuidado.
Contra o Preconceito: Outros Coletivos em Ação
Ao lado da festa do Filhas da Mãe, outro coletivo local, Me chame pelo nome, desfilava alegria. Com uma fanfarra de pessoas com deficiência, o grupo promove a causa anticapacitista.
Segundo a servidora pública Aline Zeymer, coordenadora do grupo, este é o segundo carnaval com o intuito de combater o preconceito. Eles buscam promover resistência e cuidado através da arte.