A vida em Havana tornou-se um desafio sem precedentes, com moradores relatando a “pior situação” já vivida. A capital cubana enfrenta a dura realidade de apagões extensos, escassez e preços exorbitantes. Essa crise se intensificou após o endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos no final de janeiro.
Relatos do cotidiano: a vida sob a crise energética
A arquiteta Ivón B. Rivas Martinez, mãe solo de um filho de 9 anos, testemunha a drástica mudança no dia a dia. Antes programados, os apagões em Havana agora são imprevisíveis e com duração muito maior.
Apagões: imprevisibilidade e longas horas
Ivón relata um aumento exponencial: de quatro ou cinco horas sem energia por dia, chegou a **12 horas de apagão**. Este cenário inviabiliza qualquer planejamento ou rotina. Ninguém sabe a duração exata das interrupções.
A situação é ainda mais crítica nas províncias do interior da ilha, de quase 11 milhões de habitantes. Nesses locais, os apagões podem durar quase o dia todo, obrigando moradores a comprar alimentos para consumo imediato.
Serviços essenciais comprometidos e preços em alta
Os apagões afetam diretamente serviços básicos como água, telefonia e internet. Caixas eletrônicos não funcionam e cartórios ficam inoperantes sem eletricidade, dificultando procedimentos legais e acesso a dinheiro.
Além da escassez, a arquiteta observou um aumento acelerado nos preços de itens essenciais de consumo. Alimentos como **arroz, óleo e carne de frango** ficaram significativamente mais caros nas últimas semanas.
O contexto da crise: bloqueio dos EUA
No final de janeiro, o governo Donald Trump intensificou sanções contra Cuba. Ele ameaçou com tarifas países que vendessem petróleo à nação caribenha, classificando-a como “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos EUA.
Essa medida foi justificada pelo alinhamento político de Havana com Rússia, China e Irã. Cuba gera cerca de 80% de sua energia por termelétricas, tornando-se altamente dependente da importação de combustíveis.
Momento atual: pior que o 'período especial'?
O economista aposentado Feliz Jorge Thompson Brown, 71 anos, considera a crise atual a mais difícil da história cubana. Ele a compara ao “período especial” dos anos 90, após a queda da União Soviética, mas avalia o cenário de hoje como mais grave.
Diferenças entre as crises
Segundo Feliz Jorge, a situação energética é extremamente severa, sendo “mais cruel e severa” tanto material quanto espiritualmente. Ele enfatiza que a incerteza atual é maior, pois muitos jovens não vivenciaram os primeiros anos da Revolução, diferentemente da década de 90.
O economista também aponta que o Estado tem perdido capacidade, em comparação com a década de 1990, de fornecer a cesta básica de alimentos subsidiada. Essa redução de apoio agrava a situação da população, tornando a crise ainda mais complexa.