Representantes da sociedade civil e de povos tradicionais criticaram duramente os Estados Unidos nesta terça-feira (25) durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).
O país tem bloqueado insistentemente a inclusão de pautas sociais na agenda de negociações desde o início do evento.
Entre os tópicos rejeitados está o de gênero, fundamental para a igualdade de direitos e maior representatividade feminina.
Beth Roberts, articuladora de gênero na conferência, revelou que os Estados Unidos exigiram a remoção da palavra e a definiram como inegociável.
Postura ideológica e o consenso em risco
Beth Roberts afirmou que a postura adotada pelo governo dos Estados Unidos é abertamente ideológica e reflete estruturas mais amplas de poder.
“O nacionalismo e o autoritarismo demonstrados pelo governo dos Estados Unidos não estão desconectados do patriarcado”, disse Beth, ligando a questão a uma conversa mais ampla sobre poder na conferência.
As principais decisões da COP17 exigem consenso entre os países membros, e a objeção de apenas uma nação a qualquer item pode impedir sua aprovação.
Roberts argumentou que, em casos de negociações rompidas para travar avanços, os demais países devem se unir e utilizar ferramentas próprias do protocolo.
“Os países participam como membros iguais desta convenção. Uma única parte não deveria ter permissão para ditar a conversa neste espaço”, pontuou.
A voz dos povos indígenas e comunidades tradicionais
Jennifer Tauli Corpuz, representante do grupo indígena Kankana-ey Igorot das Filipinas, criticou o desvio do conceito de consenso.
“Consenso não é bloqueio”, declarou Jennifer, explicando que a objeção de uma pessoa não deve sacrificar o bem de todos, como ocorre em suas comunidades.
A líder indígena enfatizou a urgência de focar nos impactos reais, em vez de bloqueios diplomáticos que paralisam as discussões.
“Os países têm que ser corajosos e lembrar de sua responsabilidade”, afirmou, lembrando que a missão é responder à seca e à fome, e não apenas conversar.
A ativista Hindou Oumarou Ibrahim (imagem em destaque), líder do povo pastoral Mbororo do Chade, defendeu a união entre ciência e conhecimentos tradicionais.
Ela destacou que a sociedade civil e as comunidades representam as soluções reais, participando ativamente e não como observadores passivos.
“O próprio programa oficial da COP17 reconhece a importância de nossos grupos de interesse”, questionou Hindou.
Se essas vozes são reconhecidas fora das negociações, por que deveriam ser excluídas das decisões que moldam o futuro?
Apoio internacional e o posicionamento do Brasil
O Brasil e a União Europeia têm se destacado na oposição aos Estados Unidos, defendendo ativamente a inclusão da sociedade civil na agenda.
Durante um evento paralelo, o ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, reforçou o posicionamento brasileiro.
As negociações, segundo ele, precisam incluir aqueles que são mais impactados por elas. “Temos que aproveitar os últimos dias agora para reverter essa tendência”, disse o ministro.