Moacir Santos, um dos mais geniais compositores, arranjadores e maestros do Brasil, completaria 100 anos neste 26 de julho. Sua obra-prima se destaca pela fusão singular de ritmos afro-brasileiros com o jazz. Apesar de sua magnitude, o músico ainda clama por maior reconhecimento em seu país de origem.
A gênese de um som único
Sua canção mais conhecida, Nanã, é um tributo à orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras. Inspirada na reza de uma procissão, a melodia ganhou letra de Mário Telles e foi gravada por nomes como Nara Leão, Sergio Mendes e Tim Maia, além de lendas do jazz.
Nascido no Sertão Pernambucano, na região de Serra Talhada, Moacir aprendeu a tocar instrumentos de banda marcial ainda criança. Ele faleceu em Los Angeles em 2006, aos 80 anos, devido a um derrame.
Em um depoimento resgatado pela Rádio MEC em 2016, Moacir Santos recordou seus primeiros contatos com a música. “Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo”, disse ele sobre sua infância.
Na adolescência, o músico fugiu de casa, percorrendo o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. O pesquisador Allan Abbadia ressalta que as bandas de música eram o “rádio da cidade” no Brasil Império, e Moacir carregava essa rica tradição ao chegar aos grandes centros.
Moacir Santos foi um arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista brasileiro. Foto Wikipedia/ Divulgação
Mestre para grandes nomes
Sua jornada musical o levou a João Pessoa, onde regeu a banda da Rádio Tabajara, e depois ao Rio de Janeiro. Na Rádio Nacional, atuou como saxofonista a partir de 1948, tornando-se arranjador da orquestra em apenas três anos.
Aluno do maestro César Guerra-Peixe, Moacir se tornou professor de uma constelação de talentos. Entre seus pupilos estavam Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira e Roberto Menescal.
Segundo Andrea Ernest Dias, autora de um livro sobre o artista, Moacir construiu uma identidade sonora profunda em teoria musical. Ele funcionava como uma ponte essencial “entre a erudição e o popular”, atraindo jovens músicos em busca de conhecimento.
"Coisas": A obra-prima da fusão
Na década de 1960, Moacir arranjou álbuns para Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes. Parte desse trabalho culminou no lendário álbum Coisas, lançado em 1965, considerado sua obra-prima. O disco reúne 10 composições, todas intituladas “Coisa” seguidas de uma numeração.
Andrea Ernest Dias descreve a genialidade do músico em “Coisas”, que sintetiza sua trajetória. O álbum mescla referências das bandas filarmônicas e jazz bands com a pesquisa da Orquestra Afro-brasileira, resultando em uma “estruturação musical perfeita”.
O "mojo" e o reconhecimento global
Em 1967, Moacir Santos mudou-se para os Estados Unidos, deixando a Rádio Nacional. Lá, continuou a lecionar e compor trilhas cinematográficas, integrando as equipes de maestros como Henry Mancini e Lalo Schifrin.
Nos anos 70, lançou álbuns pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note, incluindo Maestro, que foi indicado ao Grammy. Este período marcou uma nova e importante etapa em sua carreira internacional.
Andrea Ernest Dias destaca o “mojo”, um sistema rítmico inovador e swingado que Moacir criou e sistematizou. O “mojo” tornou-se uma marca pessoal inconfundível, facilmente identificável em sua música.