Para Núbia Sales Veras, de 52 anos, moradora da **Cidade Ocidental (GO)**, o transporte diário para o trabalho em **Brasília (DF)** é um desafio. Ela percorre cerca de **50 quilômetros** até o **Lago Sul**, enfrentando longas distâncias e o custo elevado da passagem. Essa rotina precária impede seu acesso a serviços essenciais, como o tratamento para fibromialgia.
Núbia já perdeu consultas e compromissos importantes por causa da demora dos ônibus e do valor da passagem. O custo diário pode chegar a **R$ 18**, limitando não só o acesso à saúde, mas também sua vida social e oportunidades para as filhas.
Núbia afirma que filhas perderam oportunidades por causa do preço da passagem. Foto: Pedro Rafael Vilela/Agência Brasil
O estudo da UnB e as barreiras do transporte
A realidade de Núbia é comum a milhares de brasileiros que dependem do transporte público. Um estudo recente da Universidade de Brasília (UnB), intitulado “Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços”, investiga essa questão.
A pesquisa revela que o alto custo das passagens e a baixa qualidade do transporte criam sérias barreiras à saúde. Superlotação, insegurança e horários imprevisíveis atrasam diagnósticos e impedem o acompanhamento preventivo de doenças crônicas.
Racismo estrutural e sofrimento psíquico
O estudo aponta que os longos tempos de deslocamento nas grandes cidades agravam o sofrimento psíquico, o estresse crônico e a exaustão. Isso potencializa quadros de ansiedade e depressão na população.
Esses impactos são ainda mais severos sob a ótica das desigualdades raciais. A pesquisa mostra que a população negra, muitas vezes com menor renda e residente em periferias, é a mais dependente do transporte público.
Assim, as barreiras de mobilidade afetam desproporcionalmente essa população, limitando o acesso a serviços essenciais e à própria cidade.
Em outro exemplo, a aposentada Helena Simão, de 72 anos, também encontrou dificuldades na **Rodoviária do Plano Piloto**. Ela, que tem osteoporose e se deslocava para **Samambaia (DF)**, a **30 quilômetros** do centro, expressou sua frustração.
Mesmo com gratuidade por ser idosa, Helena enfrenta a baixa frequência de ônibus na periferia. “Eu já não pago o transporte, mas demora muito para passar e já perdi consulta médica”, lamentou ela.
Helena Simão não paga mais passagem, mas lamenta a pouca frequência de ônibus na periferia. Foto: Pedro Rafael Vilela/Agência Brasil
O potencial da tarifa zero
Os dados do DataSUS, citados na pesquisa, revelam uma disparidade alarmante: mulheres negras têm o dobro do risco de morte materna em comparação com mulheres brancas. Essa diferença é diretamente ligada às restrições de mobilidade causadas pela segregação urbana.
A implementação da tarifa zero universal no transporte público é um dos focos do estudo da UnB. A remoção da barreira econômica do custo da passagem tem um grande potencial.
Essa medida pode ir muito além de um simples benefício de transporte, atuando como uma política estrutural para reduzir diversas desigualdades sociais.