Um teste recente da Anistia Internacional Brasil revelou falhas graves no sistema do Facebook para filtrar anúncios com desinformação eleitoral. A análise foi divulgada pela organização não governamental a 40 dias do primeiro turno das eleições gerais, em 4 de outubro.
Das 14 publicações com conteúdo antidemocrático submetidas, mais da metade teve sua programação aceita pela rede social, que pertence à Meta. No entanto, esses conteúdos não chegaram a ser publicados, pois foram cancelados pela ONG.
Detalhes da investigação
A Anistia Internacional detalhou que submeteu 15 anúncios pagos ao Facebook. Todos foram redigidos em português e direcionados à população brasileira em idade de votar, ou seja, a partir dos 16 anos.
Entre os anúncios, 14 continham desinformação eleitoral, enquanto apenas um era considerado neutro. A ONG define desinformação como o uso de ‘informação falsa, de caráter deliberado’.
Estratégias de desinformação detectadas
Os anúncios com desinformação seguiam três estratégias principais. Elas visavam minar a confiança nas eleições ou apresentar adversários políticos como ameaças à nação.
Deslegitimação eleitoral
Conteúdos buscavam minar a confiança nos sistemas de votação ou nos resultados eleitorais.
Construção do inimigo
Apresentavam adversários políticos e tribunais como ameaças ou atores ilegítimos.
Autoritarismo com foco na segurança
Sugeria o uso da força, intervenção militar ou governo autoritário como resposta à criminalidade ou desordem política.
Um dos anúncios aprovados, por exemplo, promovia a ideia de uma ‘revolução militar’. Ele incentivava a abstenção, afirmando que militares retomariam o poder se menos de 50% dos eleitores votassem.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já esclareceu diversas vezes que essa informação é completamente falsa, configurando clara desinformação.
Resultados do teste: aprovações e recusas
A ONG assinalou que sete dos anúncios focavam em alegações enganosas sobre candidatos e instituições eleitorais. Eles incluíam acusações de fraude e questionamentos sobre a integridade do sistema.
Outros sete anúncios continham informações falsas que poderiam interferir na capacidade das pessoas de votar. Isso abrangia dados incorretos sobre como ou quando votar, ou quais candidatos estavam concorrendo.
O levantamento mostrou que oito dos anúncios foram aprovados para publicação. Os sete rejeitados, incluindo um neutro, não foram reprovados especificamente por conterem desinformação.
A recusa foi justificada pelo Facebook como sendo anúncios sobre questões sociais, eleições ou política. A plataforma solicitou que a conta concluísse a verificação de identidade.
A Anistia Internacional criticou a justificativa, afirmando que ‘essas notificações de rejeição não indicavam que os anúncios haviam sido rejeitados por causa de seu conteúdo’.
Falhas na moderação e responsabilidade da Meta
Para Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, a falha da Meta em detectar a desinformação é ‘profundamente alarmante’. Isso mostra a ineficácia do sistema de moderação.
Ela ressalta que a Meta não está fazendo o suficiente para impedir que sua plataforma seja um vetor de desinformação. A empresa continua lucrando com os sistemas de conteúdo e publicidade que possibilitam essa disseminação.
O balanço financeiro da Meta, proprietária do Instagram, WhatsApp e Threads, revela que mais de 97% da receita de US$ 60 bilhões no segundo trimestre de 2026 veio de publicidade.
Envio de anúncios do exterior gera preocupação
A ONG revelou que os envios dos anúncios foram feitos a partir de Londres, sem o uso de VPN (Rede Privada Virtual) para ocultar a localização. A verificação de identidade não foi realizada antes da programação.
Para a Anistia Internacional, a possibilidade de anúncios serem enviados de fora do Brasil gera ‘sérias preocupações’. Isso aumenta o risco de campanhas de desinformação por atores nacionais ou estrangeiros nas eleições.
Ummar Bashir, pesquisador em IA e Direitos Humanos da ONG, indicou que os sistemas de moderação do Facebook ‘podem não estar detectando de forma confiável’ esses conteúdos. Isso levanta questões sobre as salvaguardas eleitorais da plataforma.