A escritora e pesquisadora baiana **Carla Akotirene** criticou, na noite de terça (28), a visão simplificada sobre o racismo na sociedade brasileira.
Ela lamentou que “a discussão do racismo foi reduzida a chamar alguém de macaco”.
**Carla Akotirene** entende que essa violência se manifesta de forma estrutural e institucional.
Sua palestra abriu o **14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores (as) Negros (as) (Copene)**, realizado na Universidade de Brasília (UnB), onde ela aborda as intersecções de racismo e sexismo em suas pesquisas.
Racismo além do que é filmado
Para a pesquisadora, a militância deve ir além dos flagrantes filmados de xingamentos.
**Carla Akotirene** aponta que, em ambientes como unidades de saúde e penitenciárias, as ações de racismo e sexismo ocorrem diariamente sem registro.
“Não é filmado porque na cadeia não entra celular. A prisão é o próprio racismo”, citou a escritora, que realizou pesquisa etnográfica em uma penitenciária feminina na Bahia.
Ela observa que “quanto pior é a cadeia, maior é a função racista no tempo”.
A pesquisadora defende que estudiosos conheçam mais a lei de execução penal no Brasil para entender a violência contra a mulher dentro da cadeia.
**Carla Akotirene** afirma que o poder público mantém uma estrutura de violência contra pessoas em privação de liberdade.
O Estado como agressor
“Uma mulher vítima de violência não pode gritar. Ela já está no braço do agressor, que é o Estado”, contextualizou.
Para a escritora, “as mulheres negras nunca deixaram de ser subalternizadas, escravizadas ou tomadas pelo patriarcado”.
14º Copene: Programação e debates
O **14º Copene** tem como objetivo debater projetos de pesquisa, ensino e extensão desenvolvidos sobre as relações étnico-raciais no Brasil.
O evento, com programação **até sexta (31)**, aborda a realidade social brasileira, valorizando experiências comunitárias, acadêmicas e políticas que fortalecem a luta antirracista.
Confira a programação completa do evento aqui.
Desafios e racismo no sistema judicial
**Carla Akotirene**, a primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior, atribui essa conquista ao movimento negro brasileiro.
“A gente está aqui porque o movimento negro brasileiro reconfigurou as universidades públicas desse país. Quantas pessoas morreram para que a gente pudesse estar aqui?”, questionou.
Ao refletir sobre o processo racista no sistema judicial, ela afirmou que há tentativas de criminalizar mais os indivíduos pardos e pretos, do policial ao magistrado.
“A polícia chega em nossa comunidade e pede para ver quem vai assumir a droga. O nosso povo é submetido à tortura, principalmente à noite”, denunciou **Akotirene**.
Ela acrescenta que os processos de prisão em flagrante também são feitos de forma propositalmente açodada, visando criminalizar mais pessoas pretas.