Morreu neste sábado (3), aos 84 anos, Mário Martins Ribeiro Carvalho, o Seu Mário, fundador do Caneco Gelado do Mário, um dos bares e restaurantes mais tradicionais de Niterói. Português de nascimento e ligado à cidade durante a maior parte da vida, ele construiu uma trajetória de quase seis décadas à frente do estabelecimento no Centro.
A morte foi comunicada pela família, que destacou a relação construída por Mário com gerações de clientes. Mais do que o fundador do restaurante que carregava seu nome, Seu Mário tornou-se uma figura conhecida da boemia e da gastronomia de Niterói.
O Caneco Gelado começou sua história em 1969 e atravessou mais de meio século mantendo características que ajudaram a torná-lo conhecido: comida portuguesa, frutos do mar, bolinho de bacalhau e, naturalmente, a cerveja servida gelada.
Por trás do balcão, porém, estava a figura que acabou se tornando indissociável do estabelecimento.

Quem era Seu Mário, do Caneco Gelado?
Seu Mário era o nome pelo qual ficou conhecido Mário Martins Ribeiro Carvalho, português que chegou ainda menino ao Brasil e começou a trabalhar muito cedo.
Nascido em 22 de dezembro de 1941, na região de Braga, em Portugal, ele veio com a família para o Brasil na infância. Ainda garoto, começou a trabalhar em restaurante no Rio de Janeiro, inicialmente lavando pratos.
A trajetória profissional avançou dentro do próprio setor. Mário trabalhou em estabelecimentos da Zona Sul carioca até reunir condições para abrir o próprio negócio.
Foi então que atravessou a Baía de Guanabara e encontrou em Niterói o endereço onde construiria a história pela qual ficaria conhecido.
Caneco Gelado do Mário nasceu em 1969
O estabelecimento foi inaugurado em 22 de novembro de 1969, justamente no aniversário de Niterói.
Mas ele ainda não tinha o nome que se tornaria famoso na cidade.
O primeiro estabelecimento de Mário foi chamado de Lanchonete Ponte Rio-Niterói. No início, o negócio era mais simples e servia produtos como pizzas, petiscos, peixes e suco de laranja.
A identidade do bar foi sendo construída aos poucos.
Uma das mudanças decisivas aconteceu quando Mário passou a utilizar canecas de alumínio mantidas na geladeira para servir cerveja. A bebida chegava à mesa em recipientes extremamente frios e os próprios clientes começaram a associar o estabelecimento aos “canecos gelados”.
A expressão pegou.
Com o tempo, a antiga lanchonete ganhou o nome que atravessaria décadas: Caneco Gelado do Mário.
Bolinho de bacalhau virou outra marca da casa
A cerveja gelada ajudou a batizar o estabelecimento, mas a comida também se tornou parte fundamental de sua fama.
Entre os itens mais conhecidos estava o bolinho de bacalhau, além de pratos e petiscos ligados à culinária portuguesa e aos frutos do mar.
Em entrevistas concedidas ao longo dos anos, Mário contou que a relação com o bolinho de bacalhau vinha também de lembranças de Portugal. A receita acabou se transformando em um dos símbolos gastronômicos da casa.
O pequeno estabelecimento dos primeiros anos cresceu. O endereço no Centro passou a receber trabalhadores da região, famílias, grupos de amigos e clientes que mantiveram o hábito de frequentá-lo durante décadas.
Seu Mário virou parte do próprio restaurante
Há uma característica que ajuda a explicar por que a morte de Mário repercutiu para além do setor gastronômico.
Ele não emprestava apenas o nome ao restaurante.
Durante décadas, era comum encontrá-lo no estabelecimento, conversando com clientes e acompanhando de perto o funcionamento da casa. Essa presença transformou o comerciante em parte da experiência de quem frequentava o Caneco.
Em 2019, quando o estabelecimento completou 50 anos, Mário resumiu sua ligação com o negócio em uma entrevista à imprensa: sua vida estava dentro do restaurante.
Essa relação próxima também aparece na despedida divulgada pela família.
Segundo os familiares, Mário recebia os clientes com simpatia, alegria e carinho e ajudou a transformar o espaço em um ambiente marcado por encontros e amizades.
A família afirmou ainda que as lembranças construídas durante todos esses anos permanecerão como parte de seu legado.
Caneco Gelado virou patrimônio cultural do Rio
A importância do estabelecimento ultrapassou os limites de Niterói.
Em 2019, o Caneco Gelado do Mário foi reconhecido como patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Rio de Janeiro.
Seu Mário também recebeu a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
O reconhecimento formalizou algo que clientes antigos já percebiam no cotidiano: o Caneco havia deixado de ser apenas um restaurante para se transformar em parte da história gastronômica da cidade.
Mais de cinco décadas depois da inauguração, o estabelecimento permanece no Centro de Niterói.
Uma história construída em Niterói
A trajetória de Mário também ajuda a contar uma parte da transformação do próprio Centro de Niterói.
Quando abriu seu negócio, em 1969, a Ponte Rio-Niterói sequer havia sido inaugurada — ela só seria aberta ao tráfego em 1974. Ainda assim, o primeiro nome escolhido para a lanchonete já fazia referência à ligação que mudaria profundamente a relação entre Niterói e o Rio de Janeiro.
Nas décadas seguintes, a cidade mudou, o Centro se transformou e diferentes estabelecimentos desapareceram. O Caneco permaneceu.
Seu Mário também permaneceu como uma figura associada à casa.
Por isso, sua morte encerra uma presença física que acompanhou várias gerações, mas deixa uma marca que continua no restaurante que criou e nas histórias de quem passou por suas mesas.
Para muitos niteroienses, dizer Caneco Gelado do Mário sempre significou falar também de Seu Mário.




