Desde adolescente, o pedreiro Danilo Fartes seguiu o conselho do pai para construir sua própria casa. Hoje, o imóvel onde vive com a mulher e o filho no Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, reflete décadas de cuidado.
Aos 40 anos, Danilo teme perder o que levou tanto tempo para edificar. Sua casa fica perigosamente próxima ao local de um deslizamento que causou a morte de mais de 20 pessoas na última segunda-feira, 23 de janeiro, com o número de óbitos em Minas Gerais subindo para 66.
“Minha esposa, minhas irmãs, meus vizinhos estão sem dormir”, desabafa Danilo. “Todo mundo achando que vai cair de novo.”
Ele destaca a importância de seu lar: “É o único lugar que a gente tem, foi conquistado com muito suor. Não temos recursos para sair e ir para outra região. Não queremos morar na rua.”
Buscas por desaparecidos no bairro Jardim Burnier, em Juiz de Fora – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Falta de prevenção e o risco iminente
O pedreiro critica a ausência de ações preventivas estruturais na região. “Eles esperam muitas das vezes acontecer para depois fazer”, afirma.
Danilo aponta: “Não tem trabalho preventivo. As poucas obras de contenção que têm aqui perto ocorreram só depois que os problemas aconteceram e de forma pontual.”
Angústia e o esforço nos resgates
Vivendo a incerteza, Danilo recorda os momentos de angústia ajudando vizinhos soterrados. Moradores iniciaram os resgates antes mesmo da chegada das equipes oficiais.
Havia grande risco de choque elétrico e enxurradas. “A população desesperada veio ajudando, tirando com a unha, na mão mesmo, na raça”, ele conta.
Ele próprio auxiliou na retirada de vítimas e tentou socorrer uma criança de 3 anos. “Fiz massagem, joguei para dentro do carro e desci morro abaixo. Mas infelizmente não conseguimos ajudar. Ele não resistiu.”
Deslizamento de terra deixou várias casas destruídas no bairro Jardim Burnier, em Juiz de Fora – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Comunidade unida em meio à esperança
Nascido e criado na comunidade, o pedreiro se esforça para manter a esperança entre os sobreviventes. Ele está engajado na organização e apoio local.
“Tenho trabalhado na organização do trânsito, na remoção de escombros e na distribuição de alimentos”, diz Danilo. “A gente vai ajudando do jeito que pode. Não tem muito o que fazer agora.”