Especialistas em relações internacionais, geopolítica e tecnologia da informação alertam para um risco iminente. Há preocupações com ações cibernéticas dos Estados Unidos e manipulação via big techs, com o objetivo de influenciar as eleições brasileiras.
Ameaça de interferência externa e cibernética
A escalada de medidas do governo de Donald Trump contra o Brasil sugeriu novas ações, especialmente no campo da cibernética. Um memorando assinado por Trump autoriza o uso de big techs em operações de “vigilância cibernética” e “efeitos cibernéticos”.
Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, considerou os efeitos do memorando “assustadores”. Ele descreveu a situação como espionagem e ação de hackeamento de altíssimo nível. Essas operações podem gerar relatórios e dossiês para favorecer ou prejudicar candidatos.
Com o argumento de combater o crime transnacional cibernético, o memorando prevê parceria com empresas privadas. Isso inclui “acesso a tais sistemas de informação sem autorização”. A Operação de Efeitos Cibernéticos permite a manipulação, interrupção, negação, degradação ou destruição de sistemas.
Nesse cenário, o especialista Aragon defendeu que o Brasil desenvolva sua própria infraestrutura digital. Ele argumenta que “todos os sistemas sensíveis do Estado brasileiro estão na mão de sistemas de empresas dos EUA”.
Táticas de desinformação e descrédito
Diferente de interferências públicas, as ações cibernéticas dos EUA podem ser realizadas de forma oculta ou “subterrânea”, sem deixar pistas da autoria. Reynaldo Aragon alertou que “o impulsionamento de perfis nas redes sociais é só uma das ações que já estão ocorrendo, mas pode ir muito além”.
O risco é sistêmico e estrutural. Em julho, o governo brasileiro chegou a barrar o visto de dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA. Havia suspeitas de que eles pretendiam questionar o sistema eleitoral do Brasil.
O professor de história e especialista em geopolítica, Euclides Vasconcelos, acredita que novas ações dos EUA para interferir nas eleições são “sem dúvida nenhuma” esperadas. Um dos objetivos seria descredibilizar o sistema eleitoral.
Vasconcelos enfatizou que as big techs são mais que plataformas; são empresas ligadas a Estados e governos. Elas “conseguem mobilizar, canalizar e influenciar de maneira muito direta certos recortes demográficos da população”.
A imigração em massa a Ceuta, enclave espanhol, ilustrou essa atuação. Mais de 60 mil pessoas cruzaram a fronteira, influenciadas por notícias falsas espalhadas nas redes sociais do Marrocos.
Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro apresenta a estrutura e demonstra testes da urna eletrônica para as Eleições de 2026. – Fernando Frazão/Agência Brasil
A conexão entre big techs e o governo dos EUA
Euclides lembrou da participação dos donos das principais big techs na posse de Donald Trump. Isso indica o interesse dessas empresas em se atrelar ao governo dos EUA para “agir como uma espécie de tentáculo dos interesses dos EUA na nossa região”.
Em junho de 2025, o Exército dos EUA revelou que executivos de gigantes como Meta, OpenIA e Palantir foram nomeados tenentes-coronéis. Eles integram o Detacamento 201, uma unidade recém-criada para abrigar líderes da tecnologia.
Essas ações se alinham à nova doutrina de segurança dos EUA, divulgada no final de 2025. Essa doutrina prevê a “proeminência” do país norte-americano sobre toda a América Latina, conforme análise de Euclides Vasconcelos.