Três anos após o brutal assassinato da liderança quilombola Mãe Bernadete, familiares, amigos e instituições de direitos humanos seguem em busca de justiça e preservam sua memória.
A ativista foi morta com 25 tiros, a maioria no rosto, em sua casa na comunidade de Pitanga dos Palmares, Simões Filho (BA).
Para marcar a data, uma missa foi realizada nesta segunda-feira (17), às 9h, no Santuário do Senhor do Bonfim da Bahia, em Salvador (BA).
A dor da perda e a busca incessante por justiça
Wellington Pacífico, neto de Mãe Bernadete, estava na casa durante o assassinato. Ele também perdeu o pai, Flávio Pacífico (Binho), ativista assassinado em 2017.
“São feridas que não foram reparadas”, afirma Wellington, destacando a dor da impunidade para a comunidade.
Ele enfatiza a importância de “motivar as boas memórias” e “ressignificar tudo o que aconteceu”, transformando o luto em luta.
O direito como ferramenta de transformação
Atualmente no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), Wellington ingressou no curso de direito. Seu objetivo é lutar por justiça para sua família e as comunidades quilombolas da Bahia.
“Tive minha família destruída, atravessada por tragédias, tendo que se reconstruir a cada dia. Essas vivências me fizeram ter outro olhar para o direito”, relatou.
Condenações e o caminho pela responsabilização
Wellington informou que os acusados pela morte de sua avó estão presos. Em abril, dois réus foram condenados pelo crime.
Arielson da Conceição dos Santos (o executor) recebeu pena de mais de 40 anos de prisão. Marílio dos Santos, envolvido no planejamento, foi condenado a 29 anos e 9 meses.
Outros três acusados aguardam julgamento, previsto para outubro, segundo a família. O processo tramita em segredo no Tribunal de Justiça da Bahia.
“A gente espera que a justiça seja feita. Toda vez que falarmos da Mãe Bernadete, a gente tem que falar do Binho do Quilombo”, diz Wellington, ressaltando a necessidade de visibilidade para esses crimes.
O legado vivo de Mãe Bernadete
Para manter viva a memória da ativista, a família, liderada pelo filho Jurandir Pacífico, planeja um novo festival de cultura e arte quilombola.
Jurandir busca parcerias para projetos como festivais, cursos de artesanato e cozinha solidária, além de “políticas públicas para as comunidades quilombolas”.
Apelo por proteção de lideranças
Selma Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), expressou emoção ao falar da brutalidade da morte de Bernadete.
“A gente espera mais do Estado Brasileiro na proteção dos defensores e defensoras de direitos humanos, das lideranças quilombolas”, afirmou Selma, que conhecia o trabalho de Mãe Bernadete.
A Conaq emitiu uma nota exigindo a responsabilização dos culpados e medidas eficazes para garantir a segurança das lideranças quilombolas.
O documento da Conaq descreve Mãe Bernadete como uma mulher que “cuidava, liderava, ensinava, acolhia e enfrentava as injustiças”, e uma ialorixá que carregava a força de sua ancestralidade.